Já que falamos em estética e classes estéticas…

Caros alunos, na aula sobre Desenho Industrial, deixei a seguinte indagação (mormente apontando-a para o conceito de Proteção Dual): Como se proteger um objeto que esteja “entre” a Arte Pura e a Arte Aplicada?

Para ajudar nesse construto, coloco um texto meu abaixo, redigido já há alguns anos, ainda quando lecionava no curso de Arquitetura e Urbanismo, sobre a “estética dos objetos”, baseado num autor chamado Adolfo Sanchez Vazquez e em seu livro “Convite à Estética”, da Editora Civilização Brasileira, 1999.

A estética é, antes de tudo, uma filosofia da arte (ainda que esta seja uma definição limitadora), mesmo que o objeto da análise (cientificamente chamado de “objeto estético”) não seja uma “obra artística”. Em outros tempos, por exemplo, as estátuas góticas eram vistas apenas como meios de invocar uma divindade; não eram vistas como “obra de arte”, embora tivessem, ainda que não propositadamente, um valor estético, ou, no mínimo, um despertar de manifestação estética do observador (cientificamente chamado de “sujeito estético”), mesmo que inconscientemente.

Dessa forma, a apropriação do sentido estético passa a se vincular à subjetividade, à cultura e ao momento do sujeito estético. Dessa forma é que Vazquez vem dizer que a estética é a ciência de um modo de apropriação da realidade, vinculada a outras formas de apropriação humana do mundo e com as condições históricas, sociais e culturais em que essas ocorrem.

Na tentativa de se quantificar o valor estético de uma obra, ou, em nosso contexto, de um produto apto ou não se ser protegido como Desenho Industrial (como base teórica para a chamada avaliação estética), pode-se identificar três categorias determinadoras:

  • Uma corrente objetiva, que define a natureza do valor estético como uma qualidade geral das características de um objeto, sob o ponto de vista estrutural (proporcionalidade, simetria, harmonia, unidade etc.);
  • Uma corrente subjetiva, que define o valor estético por meio apenas do sentimento do sujeito estético (daquilo que ele sente diante do objeto estético);
  • Uma corrente mista, onde a essência do valor estético segue uma dialética das duas interpretações acima.

O objeto apresenta-se como uma unidade entre conteúdo (portador de diferentes valores – utilitários, éticos etc.) e forma (expressão do conteúdo). Assim, a avaliação estética de um objeto depende do relacionamento entre conteúdo e forma. Além disso, num processo de avaliação, há ainda duas relações que devem ser consideradas: entre o indivíduo e a sociedade e entre o real e o ideal.

Nos processos de avaliação estética, o gosto e a norma se misturam, de modo que nenhuma avaliação subjetiva poderá se isentar de normas (ou padrões) estéticas do passado ou do presente. Contudo, uma norma, por ser o resultado de uma mera convenção ou legitimação social, não é permanente, nem tampouco universal. Pode (e deve) ser sempre testada, especialmente com a propositura do novo: o novo produto ou a nova composição visual.

O gosto depende da história do indivíduo (sujeito estético), de suas aptidões, suas paixões, suas alegrias, suas tristezas etc.. A relação real e ideal determina o resultado da avaliação estética. O ideal é a situação utópica que determina o valor desejável de um objeto, ou ambiente, ao qual é confrontado o valor real. Se o valor real é próximo do valor ideal, então o resultado da avaliação é positivo e vice-versa.

A relação estética do homem com os obras é classificada pelas chamadas categorias estéticas: o belo, o feio, o sublime, o trágico, o cômico e o grotesco.

O conceito de belo é eminentemente histórico, já que cada época e cada cultura têm os seus padrões de beleza próprios. Classicamente, o belo advém de grandezas como a ordem, a simetria e o limite e associa-se às noções de gosto, de equilíbrio, de harmonia e de perfeição. De qualquer modo, o belo (assim como as demais categorias) é sempre sensação subjetiva e desinteressada, não sendo determinado por nenhuma predisposição particular do sujeito estético; o belo julga-se por si mesmo, “agrada sem conceito”.

Já o objeto feio talvez seja bem mais fácil de ser classificado que o belo, inclusive por estarmos cercados de milhares de itens desenvolvidos com fins eminentemente funcionais. Todavia um objeto feio necessariamente não é um produto mal concebido, isto é, um “feio” não é um “belo” que não “deu certo”. Feio não é o “não belo”.

Os juízos sobre o belo e o feio são potencialmente arbitrários. Se um objeto é considerado feio é porque não possui aquilo que se julga ser belo, mas como tal consideração é sempre subjetiva, o que é feio para uns pode ser até sublime para outros e vice-versa.

O sublime não é apenas o belo elevado ao seu mais alto grau; exige a condição de ilimitado, ou seja: é sublime o que nos escapa do juízo imediato do belo. O sublime é aquilo que a imaginação não consegue apreender; o belo é passível de apreensão pela imaginação e encontra-se num objeto finito. Já o trágico, do ponto de vista estético, incorpora não só critérios de dramaticidade, mas também um certo “prazer” no sujeito estético, por mais antagônico que sejam esses sentimentos.

Objetos cômicos são aqueles que apresentam, como o próprio nome diz, um grau de comicidade superior ao comum. Isto é, por sua forma, provocam risos no sujeito estético. A comicidade não está presente tão só nos objetos lúdicos, nem tampouco naqueles que têm este requisito como sendo obrigatório. Um produto pode ser cômico de uma forma despretensiosa e nem por isso obstar os risos das pessoas que o apreciam.

Além dos risos, a mudança formal de um objeto pode gerar outros tipos de sentimentos, inclusive a repulsa e a rejeição. Esta alteração conceitual, quando realizada de uma forma abrupta, pode dar um aspecto disforme a alguns produtos, tornando-os esteticamente classificados como grotesco, categoria caracteriza pela presença predominante do estranho, do fantástico e do irreal ou antinatural, que podem ocorrer, por sua vez, em cenários distintos. O estranho e o fantástico podem ser de natureza diversa, constituindo-se na tendência de unir seres diferentes e objetos reais a outros realizados ou deslocados de seu contexto natural.

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